Thursday, October 19, 2006
estamos na cozinha, completamente destituída da mofada lógica da mulher na pia e do homem, pensando, com a porta da geladeira aberta. a cozinha, para os nossos heróis, é o recanto no qual eles debatem o golpe militar na tailândia e o golpe do baú na idealândia. essa narração dificilmente dá conta da imensa envergadura moral de JOANA e RAFAEL que, nesse instante, aposentam a bandeira branca e caem direto na disputa sangrenta das trincheiras.
JOANA: uma pessoa tem quatro chances de subir na vida. digo, por osmose, sem esforço, são só três. eu tô excluindo aqui a provavelmente inviável chance d'eu ou você conseguirmos sair do lugar.
RAFAEL: você mudou de assunto.
JOANA: pensa bem, ó só: você nasce, certo? nasce na manjedoura, é criado na roça, tem seu próprio pé de laranja lima e dorme com um mosqueteiro. mas você também pode nascer na maternidade, passear encapuzado pela rua e conhecer todas as medidas de profilaxia contra amarelão desde os 4 anos de idade.
RAFAEL: mas isso não é exatamente uma vantagem. talvez o bebê urbano só ganhe de lambuja o valor da passagem de ônibus entre campina grande e campinas, são paulo.
JOANA: eu acho queu me expressei mal. vamos colocar assim: chance #1, berço de ouro.
RAFAEL: já esgotamos uma, acho. o berço que usei incluvise me foi repassado pelo meu irmão, sabe como é, ele já tava dormindo numa cama e não se desperdiça uma boa madeira de lei, fora que não é interessante eu dormir no mesmo lugar que ele? tem toda essa relação fraternal, ele amaciou meu colchão...
JOANA: ...ele preparou o terreno, "pode vir agora".
RAFAEL: exato, mas diga a próxima.
JOANA: um bom casamento.
RAFAEL: bem-vinda de volta ao início do século, sinhá. acho que seu pai, o senhor latifundiário do título emérito, já acertou seu lote em 200 cabras e um porquinho polpudo.
JOANA: você há de convir que existe esse mesmo tipo de planejamento milimétrico no século do orkut. as pessoas só trocaram as cabras por bodes expiatórios do tipo mora-de-fundos / mora-de-frente.
RAFAEL: o que elas não sabem é que em vários apartamentos de fundos tem, com alguma sorte, o ótimo sol da manhã, enquanto ó! você vê a praia e quem-está-na-praia mas frita com o sol das 3.
JOANA: mas, então, admita a possibilidade de um bom casamento.
RAFAEL: certo, ela existe. mas não é difícil dar o flagrante pro bote ultimamente? punk de boutique! mercantilizaram tudo, grifaram o que era antes grifitado. lembra do tempo em que ser cool era só botar all star no pé e sair pro mundo? as coisas eram fáceis até então.
JOANA: você não é da turma dos descolados, mesmo. o baralho é parte da experiência universitária. sueca, então, é pré-requisito pra boa formação acadêmica.
RAFAEL: enquanto eu dou uma encorpada no currículo meus colegas fazem prontuários dos deles.
JOANA: eu vou te falar quem precisa do choque da legalidade e você não vai gostar.
RAFAEL: mas é fato que as pessoas fazem de tudo pra serem diferentes. pintam o cabelo de vermelho, seguem a religião do john travolta e ficam eletromagneticamente atraídas.
JOANA: mas o all star continua firme e forte. é a fortaleza dos desvalidos.
RAFAEL: e a arapuca dos bitolados.
JOANA: sabe o que eu li? lógico que não. eu li que a candidata a governadora do rio disse que heloísa helena anda de baby doll no coração dela.
RAFAEL: bacana isso. aposto que "camisola" não surtiria o mesmo efeito. brizola... negros quilombolas.
JOANA: e, se o seu casamento for merecedor de uma radiografia pomposa de bergman, você pode tentar como último recurso... FILHOS.
RAFAEL: meu filho vai ser médico!
JOANA: o meu vai ser diplomata!
RAFAEL: cirugião-obstetra.
JOANA: celso amorim.
RAFAEL: realmente, a fronteira final são filhos gênios mesmo. eles te pagam o spa no fim da vida.
JOANA: eles te bancam viagens internacionais no fim da linha. oriente express. acho que você finalmente vai reproduzir.
RAFAEL: você selou o acordo.
Wednesday, September 20, 2006
ano passado, faculdade em greve, 50 indo para 60 filmes. nesse ano, não só a faculdade como também vários itens rocambolescos e dispendiosos ganham o tracejado do confere.
o que não confere é a seleção fraca e descompensada desse ano, que resolveu deixar os filmes de hong sang-soo, zhang-ke e apichatpong w. na alfândega canadense. como o festival de toronto coloca as mãos nos laureados de veneza enquanto o festival do rio, em cartaz 3 semanas depois, lava as mãos? blame it on canada.
uma recapitulação: em 2005, guilherme alves adquiriu essa mania estranha de se referir a si próprio na terceira pessoa. nosso herói saiu de santos, são paulo, e viajou ao rio por 2 semanas para acompanhar o festival na íntegra. guilherme alves teve essa experiência extraordinária de, no dia inaugural, começar com PELE DE ASNO às 9 da manhã em botafogo e terminar com O MUNDO, finalizado no início da madrugada em ipanema. guilherme alves estava hospedado na casa dos tios que fica aproximadamente a umas 2 horas de ônibus + barca + sola do sapato do epicentro da coisa. nosso destemido guerreiro levava garrafinha d'água mineral com café requentado dentro. levava também sanduíches preparados em casa em tupperwares só para economizar. guilherme alves emagreceu e se apaixonou. nosso quixotesco protagonista quase foi assaltado, morto e sepultado e quando voltou à tona, no 14o. dia, tinha um balanço quase inóspito de tão sisudo e ó-como-eu-sou-difícil. é preciso muita marra para aparecer com a lista dos 10+ assim:
10e CHAMBRE - INSTANTS D'AUDIENCE (81)
OS ARTISTAS DO TEATRO QUEIMADO (77)
O DEMÔNIO E DANIEL JOHNSTON (70)
A DIGNIDADE DOS NINGUÉNS (70)
OS HERÓIS E O TEMPO (70)
LOW PROFILE (69)
CAFÉ LUMIÈRE (69)
O CÉU GIRA (68)
DIAS NO CAMPO (68)
UM PEIXE FORA D'ÁGUA (66)
os CINCO primeiros e o antepenúltimo são documentários. guilherme alves pensou que isso se consolidaria como uma tendência nos próximos meses. era fogo de palha. nenhum documentário foi eleito em sua programação desse ano. ou ele encara de vez a ficção ou ele fica permanentemente mau encarado.
então, sem maiores delongas, vamos ao impraticável e dispendioso e perigosíssimo roteiro elaborado numa tarde quente de primavera.
indefinições muito prováveis de não acontecerem em vermelho.
indefinições muito prováveis de ocorrerem em verde.
dias 22 até 24/09 - nada
dia 25:
DEITE COMIGO: UNIBANCO 1, 14h45
MAN PUSH CART: UNIBANCO 2, 17h15
BAMAKO: BOTAFOGO 1, 12h ou 19h (dependendo de que aula eu decida cabular)
por que ver os dois primeiros? por que não?
por que ver BAMAKO? porque o último filme do diretor, A ESPERA DA FELICIDADE, me deixou louco e fascinado e me-tira-daqui e eu-quero-me-perder-aí em igual medida. e por causa disso.
dias 26 até 28/09 - nada
dia 29:
LUZES NA ESCURIDÃO: IPANEMA 1, 13h15
O AMIGO DA FAMÍLIA: BOTAFOGO 1, 16h30
JUVENTUDE EM MARCHA: UNIBANCO 3, 19h
por que perder LUZES? o deadpan de kaurismaki não enche meu prato e as más línguas informaram a ocorrência do seguinte diálogo, vejam: "como foi na prisão?" / "não dava para sair, todas as portas estavam trancadas" etc. e ipanema é longe e tem todo um fator Trauma envolvido naquele bairro e eu perderia minha aula de italiano.
por que ver AMIGO? porque o pessoal em cannes deu piti. porque d'angelo gostou e ele é sempre tão reticente e irritadiço com filmes aparentemente misógenos e sociopatas etc.
por que ver JUVENTUDE? porque em todo lugar você vê a associação da respectiva Experiência com "requer paciência". sinto-me alertado e amedrontado.
dia 30:
COMO FESTEJEI O FIM DO MUNDO: UNIBANCO 2, 13h
FLANDRES: BOTAFOGO 1, 17h
a vida é dura para os amaldiçoados 1: BACKSTAGE, PALÁCIO 2, 17h (empurraria os dois de cima para horários proibitivos. você quer pegar ônibus em botafogo a meia-noite? não queira.)
por que ver COMO FESTEJEI: porque é romeno e o irã já deixou de ser o recanto etnocêntrico favorito do europeu privilegiado culpado. a romênia tem o hype.
por que ver FLANDRES: bruno dumont é jënëo ok reflita.
dias 1o. e 2:
provavelmente não. dia 1o., de nota, tem LUZES NA ESCURIDÃO (ver acima) num horário interessante (16h45) e 12:08 LESTE DE BUCARESTE, num infeliz horário coincidente, às 17h30. para o último, eu tenho um horário alternativo bem melhor no dia 3.
o dia 2 é dia morto.
dia 3:
DIAS DE GLÓRIA: BOTAFOGO 1, 12h
ESPERA: BOTAFOGO 2, 15h saindo igual um lunático para...
DEZ CANOAS: BOTAFOGO 1, 16h30
12:08 LESTE DE BUCARESTE: SÃO LUIZ, 19h (ver obs. acima)
por que ver DIAS DE GLÓRIA? porque o horário é cômodo, deixeu me ajeitar aqui na poltr...
por que ver ESPERA: eu empreendi umas duas horas pesquisando coisas obscuras e decretei esse pequeno filme a jóia escondida do festival a qual ninguém verá porque está numa sala fajuta e é legendado em inglês e não tem nenhum prêmio na bagagem, muito menos referências críticas e comentários dos usuários no imdb. vou roletar!
por que ver DEZ CANOAS? que soe pouco convincente mas... porque não está comprado.
por que ver LESTE DE BUCARESTE? porque é romeno. e por isso. e porque rima.
dia 4:
EL TOPO: PALÁCIO 2, 14h30
THE HOST: idem, 17h
por que ver EL TOPO? porque é a única coisa mais mofada queu programei. ou melhor: que me programaram. se o mundo fosse perfeito eu encaixaria um do visconti aqui.
por que ver THE HOST? porque o diretor é o coreano favorito dos nerds depois de hong sang-soo. e porque tem cara e fuça de ser a sessão mágica do festival.
dia 5:
MUNDO NOVO: IPANEMA 2, 13h
GABRIELLA: idem, 15h15
UM CASAL PERFEITO: UNIBANCO 2, 17h30
TERRA ABANDONADA: idem, 19h45
a vida é dura para os amaldiçoados 2: outro horário nada compatível para BACKSTAGE. o novo filme do panahi, OFFSIDE, idem. e caso eu não consiga pegar os dois primeiros, eu colocarei os dois últimos em outros horários (CASAL às 13h e TERRA às 15h15)
a vida é dura para os amaldiçoados 3: como matar a aula de toria geral do processo, com seus trabalhinhos semanais valendo meio ponto.
por que ver MUNDO NOVO? é a diretora de RESPIRO e ganhou prêmio de originalidade em algum lugar chique aí.
por que ver GABRIELLA? porque é elogiado e porque eu tô no clima para algo jane austen encontra jane fonda e porque tem isabelle huppert.
por que ver UM CASAL PERFEITO? porque filipe furtado mandou. e quem sou eu para contrariar filipe furtado?
por que ver TERRA ABANDONADA? você já viu algum filme do sri lanka? exato.
Friday, September 01, 2006
é estranho e suspeito e etc. o boicote à minha iniciativa generosa de apresentar facetas e arestas e pontos-cego deste que vos fala. traumas de infância poderiam ser resgatados, a nostalgia reverente poderia se transformar numa alegoria macabra da ciranda-cirandinha como urubus ao resgate da carniça. seria realmente um vale-tudo. vale tudo em vales-tudo. eu poderia desenvolver essas facetas o suficiente para lapidá-las (exato, como um diamante) e, quem sabe, superar uma tendência à sociopatia que desagrada uns conhecidos. com isso em vista, eu adotarei aqui o método empregado com sucesso por tiago superoito.
tiago superoito está aberto. a bem da verdade, está arreganhado. facinho-facinho, ao seu alcance. pode chegar nele, cara leitora, ele foi chutado há pouco. como nos supermercados em que os produtos baratos se localizam lá na estratosfera ou nas zonas abissais das prateleiras e os mais caros convenientemente alocados na linha de visão, tiago escreve iguarias finas a toque de caixa. tiago superoito parece o décimo terceiro homem do bando de ocean. o braço-direito. o zero a esquerda. aquele que tira coelhos da cartola e, ao fim e ao cabo, age como quem acabou de fazer uma traquinagem. sem esforço.
essa introdução pertence a outro texto, honestamente, porque agora, sem delongas, cabe dissecar a vida dupla (calma) de guilherme alves. formol a gosto. dupla com gusto.
vejamos, as aulas de direito começaram nessa semana. transferi o semestre para o turno no-turno. isso é bom porque o matutino ainda não sabe se é um desfile dessas marcas tchan hype surfista pleibói feira hippie patricinha ou praticamente o compêndio de todos os cortes de terno e tailleurs possíveis para um(a) jovem de 19, 20 anos. em direito, as pessoas começam a trabalhar cedo. alguém no sexto período sem nada vistoso é um fracasso. mas como não cultivamos muito o hábito do trabalho como fonte ética, esses (/nós,) fracassados simplesmente são saudados como a juventude bem guarnecida de sofá, pringles, trakinas e internet nas tardes abafadas da cidade.
e olha que eu sou obcecado com isso. com a idéia de ter que trabalhar. eu quero trabalhar, mas não quero trabalhar naquilo que eu acho que vou acabar trabalhando porque trabalhar nisso que todos os meus colegas trabalham é algo que eu nunca trabalharia para conquistar. os estágios são inúmeros. tem pra todo mundo, quem dá mais etc. e porque então eu estou praticamente largando o curso sem ao menos ter tentado alguma coisa?
suponho que você esteja lendo isso com atenção, então D-I-C-A: a resposta foi dada. a pergunta é retórica e a resposta é uma grande, enfadonha e teimosa (não no sentido persistente-batalhador) volta nos três anos passados brincando, colando, atrasando, parasitando e até, bem, filmando.
ao contrário do que o para-choque do caminhão pode indicar, começar novamente, correr atrás é difícil. e o mais incompreensível é que eu estou fazendo exatamente isso na segunda parte da minha vida dupla. (não pense o que você está pensando, leitor)
como se dá a volta por cima? quem legitima sua volta por cima? tem um cobrador que grampeia seu tíquete lá no topo? o fato é: 2 anos e meio desfocados sempre perseguirão qualquer coisa que eu tentar no enfadonho curso de direito. será sempre aquela - merecida e mandatória - sensação de desqualificação que o mercado de trabalho tanto gosta de incutir no pobre proletário. e mais que isso. são seus grandes amigos projetando num slide imagens de um futuro brilhante e você está na apresentação anotando os sete erros entre uma e outra. não são sete erros, são sete diferenças.
eu, egoísta e horroroso, me afasto de pessoas importantes para mim porque olhar pra elas é como olhar para esse grande, gigantesco refletor de luz. é pensar que em 2004 nós estavámos num mesmo patamar e num piscar de olhos alguém deu um salto e eu fiquei lá, solto e perdido.
e como prestar vestibular uma segunda vez não seria um corajoso começar-de-novo. é lógico que é, mesmo o conceito não entrando decentemente na minha cabeça. isso é tão mais valente por reconhecer uma gigantesca pedra no meio do caminho e dar uns passos para trás. os passos para trás recolocaram as coisas em foco. sim, foi uma desistência não-oficial (eu ainda estou matriculado etc.), mas se eu estou revestindo essa bandeirada branca como te-pego-na-saída é porque se existem duas coisas que eu ganhei em três anos foram maturidade e paciência. maturidade e paciência para acreditar nessa baboseira que eu inventei unicamente por auto-proteção.
ainda mais incongruente que pensar num pendurar de chuteiras como a atitude mais coalhuda já feita por mim é cair no fatalismo fácil, condescendente, tenha-pena-de-mim-aqui-ó de que eu perdi 3 anos da minha vida. direito, na verdade, é utilíssimo caso se queira deter o tão-chamado estado mínimo neoliberal num processo de descentralização do poder estatal, endossado por infinitas autarquias e agências reguladoras. viram? conhecimento geral. eu aprendi várias expressões interessantes em latim. é só latir vade retrum em todos casos.
então, a segunda parte do meu dia (a primeira em importância) é um cursinho pré-vestibular de mensalidade módica e modalidade intensiva. começou em agosto e vou até final de outubro com ele.
enquanto uns encontram seu cubículo na divisão internacional do trabalho, outros vão para a carteira favorita (segunda fileira no envergonhado canto esquerdo) do pré-vestibular local.
e eu gosto demais daquelas pessoas. menina que faz física quer prestar para direito. mineiro quer estudar cinema na uff (tem certeza?). pessoas tentando história, geografia, engenharia de produção, artes cênicas, veterinária, medicina. e eu me misturei lá dentro como um recém-formado que tenta cursinho porque não passou de primeira. o orgulho passa pro esôfago e o que sobra é apenas guilherme alves finalmente entendendo que o erro tem remendo e você não precisa ficar remoendo nada porque aquelas pessoas não esperam nada de você. elas já tem muita expectativa nos ombros.
só não vale ficar parado. e se eu não consigo me livrar da paralisia agonizante no campo profissional, eu posso bancar um jovenzinho batuta mais uma vez preso num ano-chave, no ano da maioridade e do tão-resguardado estopim para uma pura, inadulterada satisfação. pra vestibular sem bula se vai na fé.
Friday, August 11, 2006
mande sua pergunta para guilherme alves que ele responderá numa futura postagem!; vale tudo, inclusive vale-tudo! sem juiz e sem juízo! meias palavras, orelhas canibalizadas, macacosmemordam! também são legítimos questionamentos feitos a partir de uma garrafa de cachaça vazia e deitada! envie-a para essa caixa de comentários, a poucos centímetros dessas linhas! seja cruel! seja impiedoso! seja imperioso!
***
título de uma postagem que não viu a luz do dia: uns tem um cubículo na divisão internacional do trabalho, outros tem uma carteira no pré-vestibular local.
ou outro: ...e guilherme alves sabiamente pensou: "esse é provavelmente o último grupo de pessoas com o qual eu gostaria de ser internado na mesma ala do hospital em coma alcoólico."
Wednesday, August 02, 2006
eu, lloyd
sempre acreditei que relacionamentos deviam terminar num consentimento quase mudo de tão óbvio. é condição essencial. é sine qua non para o status quo ante. é lacônico e monossilábico. seria primitivo, como na idade de ouro da pedra lascada, mesmo com uma ambientação apropriadamente gélida numa conversa via msn ou pequeno burguesa de uma volta no parque. tão fácil quanto a walk in the park.
não estou pedindo para ninguém reinventar a roda. é non-sense mesmo, nível blake edwards de descoordenação ritimada. seria a simplória constatação de eu :: você = pessoas muito diferentes trilhando caminhos idem.
jacques demy, por exemplo, enxerga uma simples contradição e a reticência como alternativa viável na resolução do encantador OS GUARDA-CHUVAS DO AMOR. aposente a nostalgia byroniana você também. esse é o freak-show do coração ensanguentado. os novos pornógrafos entoam hey la, hey la. you have the right.
pessoas crescem e se desenvolvem longe umas das outras e, na minha opinião abelhuda, fiscalizar os passos e o fermento da biomassa de alguém é uma das coisas que todos nós sentimos falta pós... pós. simplesmente pós. fiscalizar não nessa acepção vigilantista; é observar com cautela, acompanhar a gestação de uma pessoa dentro de uma pessoa. a pessoa dentro da pessoa é a que você quer preservar. o preservativo furou. você e sua parceira ajudaram a conceber aquela pessoa e os momentos que você passou junto da primeira moldaram a segunda de modo imperceptível e permanente.
em fevereiro, fui chutado. sem nomes. sociedade anônima e ltda.
eu gostaria, no entanto, de ter gravado algumas conversas telefônicas que tive com uma pessoa em especial (o tal ombro amigo) e como essas conversas me levaram a acreditar que eu não me importava de não ser mais o namorado da tal pessoa, mas de ter diante de mim mais uma porta escancarada...mente fechada a sete chaves.
aquela pessoinha que eu e ela e todo mundo que conhecemos ou íamos conhecer. essa pessoinha que alguns humanóides materializam em caixas com cds ofertados (rob & laura, sid & nancy), gravuras, incrições, fotos, o único canudinho do milkshake de ovomaltine do bobs de 700ml. eu não. eu materializo em portas, como já disse. portas fechadas. os amigos dela que eu não ia mais conhecer. eu não iria tanto para a capital (eu niterói, ela flamengo). coisas que ela me contou semanas antes e que eu nunca saberia o desenlace. eu perderia coisas que eu me achava entitulado a ter.
você não é entitulado a nada. talvez a um título de nobreza por suportar com uma elegante e ferrenha convicção o último tchau---tchau numa estação do metrô (acho que estação carioca, saída na av. rio branco) e depois ir ao ccbb e tentar ver um filme que eu sempre tento mas nunca consigo, CIDADE BAIXA. e não conseguir senha. e voltar para a aula de direito penal II e voltar para casa. as portas de casa estão sempre abertas.
mas você fecha a porta do seu quarto para dormir, ou para fingir que está dormindo. e você pensa que deveria existir o tal consenso. que decisões unilaterais como essa - especialmente se entregues na conveniência high-tech de uma mensagem instantânea - são injustas. que você deveria ter terminado e não vice-versa. que sua vida terminou. que ela não deu uma chance e caiu fora na primeira dificuldade nem-tão-terminal-assim. que a culpa é dela e por isso é injusto ela terminar. que sua vida terminou.
e não terminou. eu sou a prova viva disso. juro. e nem precisei tomar um porre ou contrair uma dst para espairecer.
eu queria detalhar mais e, no entanto, pouca coisa produtiva e instigante vem a mente. é abençoadamente recompensador e ligeiramente triste essa sensação de ter parte de suas recordações lacradas em quarentena apenas para perderem a cor e a exuberância e serem, devagar e constante, removidas da terra arrasada de ninguém para o limbo empoeirado da namoradinha-da-juventude. sabe, netinhos, antes de conhecer a vó de vocês eu meio que atirava para todos os lados...
***
último dia bom com ela foi em ipanema. isso até um assalto a mão armada. eu não sei se toda a ilusão de guilherme alves como grand savior ao resgate foi demolida com meu papelão passivo frente a uma nada ameaçadora .38. talvez ela estivesse esperando o superboy em smallville. não foi bonito.
***
com a adorável lloyd, i'm ready to be heartbroken (do adorável, adorável grupo camera obscura) repetindo e repetindo eu começo a pensar que a palavra-chave do refrão é ready e não heartbroken.
'cause i can't see further than my own nose at this moment, canta nossa intrépida vocalista. timing é tudo e eu entendo o seu lamento mesmo depois de seis meses.
Friday, July 28, 2006
na última sexta do mês, uma sessão de cinema-no-cinema universitário de niterói homenageia o forte sentimento pan-americano com filmes latinos que acabam resvalando (ainda bem) pra safra argentina.
então, eu estava nessa sessão que homenageia as três américas com filmes argentinos e os organizadores chegaram. dentre eles meninas de saia rodada. e all-star. e tudo calmo no front-clichê da cineasta wannabe guerrilheira.
os organizadores trazem debaixo do braço cartazes. a menina mais bonita do grupo aparece com livros e cds.
antes da sessão começar: sorteio.
(pessoas ficam justificadamente contentes. é hora do show.)
ah então foi pra isso que todos nós recebemos uma senha. senha no cinema universitário! é educação federal sucateada, repassada como burocracia de gabinete em gabinete de funcionariado público. meu número era 008746. mofar-me-ei. mas a cadeira é acolchoada.
começa o sorteio. mentalizem um sorteio dentro de um cinema.
um detalhe me incomoda.
a cada número sorteado, alguns tapados gritam "quase!"
um exemplo fictício mas inteiramente demonstrativo:
sorteador: ... número 008721!
sorteado em potencial: por pouco! o meu era 008722!
***
não faz sentido. é uma ciência exata essa de tirar esses pequenos papéis dum saco vermelho. cada papel é uma individualidade que basta em si. as pessoas inconcebivelmente acreditam que esse processo de escolha é o mesmo do croupier que gira le grand roleta, na qual, aí sim, cabe a consternação dos amaldiçoados "número X está tão ohmeudeusPERIGOSAMENTEpertoePERIGOSAMENTElonge do número X+1".
pense: uma pessoa poderia ter o número 007234 e berrar "quase!" quando o sorteador tirasse o papelote 009421 simplesmente por acreditar que o seu, o 007234, estava localizado num espaço delimitado pela extremidade esquerda do número sorteado, o 009421, i.e. próximo fisicamente, distante numericamente.
essa pessoa poderia conceber que os números 009420 e 009422 estão em extremidades diametralmente opostas ao 009421 e nunca-mas-nunquinha-mesmo o sorteador poderia ter apanhado o número antecessor e o sucessor do tirado. mas o sorteador poderia ter tirado seu número, por mais analogicamente desengonçado na comparação com número realmente tirado.
poderia. juro que poderia.
entende?
não faz sentido. digo, essas pessoas. meu raciocínio faz completo sentido.
***
para protestar na próxima sessão:
(sorteador) e o cartaz do filme [...] saiu pro número... 002137!
(eu, gritando) caramba, quase.
(namorada ao lado) qual foi seu número?
(eu) 006969.
(namorada ao lado) [inserir o RISO dos TOLOS apaixonados], eu li esse texto! foi divertido. eu me apaixonei por você a partir d'então. acredita?
***
eu acredito. flecha do cupido pega eu!
Tuesday, July 18, 2006
hoje cortei o cabelo (e aqui eu ia bancar camus n'o estrangeiro e brincar com o tempo mas desisti. sem energia pra reciclagem) e fiz a barba e eu assisti uma aula (das 2 que tive, 50% nao é ruim) e comprei 5 batatas, 2 tomates, 2 maçãs e 3 pêras. tomei um açai com guarana levando banana e levei pra tomar em casa. e estudei e preenchi uma ficha de estágio. e menti falando que meu italiano é intermediário (só tive 6 aulas, 5 na verdade porque a primeira foi "hi, what's up" e "caramba, italiano e espanhol sao muito parecidos" e "haha, ecco é a versao italiana pra voilà, mundo pequeno, ahn?"). tinha uma vaga de estagiário lá na glória pra estudantes do 5o período. 260 merréis? obrigado, mas não obrigado. e pra elaborar petições e pesquisar jurisprudência! não, eu não me vendo! essa etiqueta aqui ó é só certificado original de nerdice. emprestei uma legislação de administrativo prum amigo ("se arreganhar eu não aceito de volta"). tirei fotocópia colorida da minha identidade recém-tirada. recebi um trabalho por e-mail (noemi! savior!). peguei um material de vestibular de 3 anos atrás numa pasta amarelo-bebe (matheus! savior!). tomei uns 300ml de café. assisti ao episodio vespertino de gilmore girls (fenomenal! rosa na lapela! maçãs de plastico! dá licença queu vou tombar ali). dei comida pro canarinho. olhei pro canarinho. isso do quarto. da mesa de estudos. li umas redações nota 10. fiquei feliz porque descobri que consigo fazer coisas do gênero. daí fiquei triste porque lembrei que há 3 anos minha maior nota em redação foi 8,25. daí "não há descanso pros amaldiçoados". tô cansado desse lema. é muito fraco, a sonoridade é perfeita, mas é bobo. bobo demais, muito místico, muito me-dá-sua-mão-tira-uma-carta-mágica. ultimamente tô preferindo "os mansos não herdarão a terra". pura e inaditivada verdade. sun tzu ao meu resgate. estudei. geografia. tipos de rocha e correntes marítimas. tive vontade de terminar suave é a noite. vontade terminada. msn messenger. me mandaram músicas mas meu computador não ajudava (eu anotei, amanda, e sim eu tinha aquela do decemberists). descobri que camera obscura nao é exclusividade minha (pffff). daí gravei eXistenZ, do cronenberg (daí eu vi um pedaço e descobri que eu ainda amo a jennifer jason leigh). daí preparei um lanche (pão, azeite, presunto, queijo, alface, tomate, beringela) e outro pro meu pai, 38,5 de febre. são 23h. lavei a louça (pouca, e coisas sem gordura, entao é só passar água corrente). ele acabou de ver o episódio novo da tapada série 24 horas e eu estou aqui mas pretendo me desmaterializar desse espaço e me materializar de novo na mesa de estudos no 3.
3... 2.
[eu geralmente agonizo em blogues cuja força motriz é 'meu cotidiano é banal, mas existe encanto na banalidade, leia nas entrelinhas'. daí virei masoquista.]